Auditoria cruzada revela repasses fragmentados para entidades sem sede ativa no interior do Estado; parlamentares pressionam por abertura de CPI enquanto lideranças do governo articulam blindagem em ano eleitoral.
No final da tarde de uma terça-feira de inverno ameno em Campo Grande, o plenário da Assembleia Legislativa operava com a sonolência típica dos dias de pauta protocolar. Entre apartes mornos e leitura de moções de congratulação a pecuaristas e pioneiros do agronegócio, um calhamaço de duzentas e quarenta páginas transitava discretamente pelas bancadas da oposição. Tratava-se de um relatório confidencial compilado por auditores independentes, detalhando o destino de mais de 84 milhões de reais em emendas parlamentares impositivas distribuídas ao longo dos últimos vinte e quatro meses.
O que as planilhas exibem não é apenas a tradicional generosidade dos cofres estaduais com redutos eleitorais dos deputados, mas um engenhoso labirinto de triangulações financeiras. Pelo menos catorze organizações não governamentais beneficiadas — sediadas formalmente em cidades como Anastácio, Miranda e Amambai — simplesmente inexistem nos endereços cadastrados junto à Receita Federal e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS).
"Não estamos falando de desvio rústico em sacos de dinheiro; trata-se de arquitetura sofisticada de dispersão de pequenas cotas para não disparar os alertas automáticos do tribunal."
Em três visitas de campo realizadas pela reportagem do Todo Dia Notícias MS na primeira semana de setembro, o padrão se repetiu: nos locais declarados como centros comunitários e institutos de qualificação profissional de jovens ribeirinhos, encontrou-se uma serralheria desativada, um terreno baldio cercado por tapumes corroídos pela ferrugem e, no caso de Amambai, a residência familiar de um ex-assessor comissionado da mesa diretora da casa de leis.
Procurada formalmente através da Lei de Acesso à Informação, a assessoria da mesa diretora argumentou que "a fiscalização in loco da execução física dos objetos conveniados compete exclusivamente aos órgãos do Poder Executivo celebrantes dos termos de fomento". O governo estadual, por sua vez, informou que instaurou procedimento administrativo para auditar a liquidação das despesas e que os pagamentos pendentes foram preventivamente congelados.
Nos bastidores, contudo, a temperatura é de alerta máximo. Com a proximidade do pleito eleitoral, lideranças partidárias temem que a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito desestabilize alianças consolidadas no interior e exponha os fios que conectam a política tradicional de Mato Grosso do Sul aos contratos de prestação de serviços do terceiro setor.